quinta-feira, 3 de junho de 2010

Surpresas - 3ª parte de Anjo

"Ela não vem. Tenho que me conformar com isso. Já anoiteceu e eu estou aqui, como um idiota, esperando por ela. Não sei nem porque me iludi com o fato dela deixar o coração falar... Ela nunca fez isso, não vai começar agora. Estúpido..." Damian pensava enquanto andava lentamente pela praça. Havia marcado com Elisabeth pela tarde, mas já havia anoitecido e ela não aparecera. Nem ligara. O vento frio da noite já soprava, o que fez Damian se encolher mais dentro do sobretudo que usava. Ele chegou até seu carro, destravou o alarme, e olhou mais uma vez para a praça. "A praça... O momento mais mágico... Não foi nenhuma data importante, não houve nada que nos obrigasse a ficar lá, muito menos que nos obrigasse a sair daquela chuva fina... Eu me senti totalmente diferente de qualquer outro momento. Nem nossa primeira noite me fez sentir tantas coisas diferentes... Foi um momento em que eu me senti livre, me senti eu mesmo, me senti um homem, um menino, um deus e um rélis mortal, tudo isso ao mesmo tempo. Acima de tudo foi um momento de amor, de puro e simples amor. Naquele momento eu não queria mais nada, mais ninguém, o mundo havia parado, os pássaros, o vento, a chuva, tudo. Tudo havia parado de maneira inacreditavelmente deliciosa. E o jeito como ela sorria? Ela parecia a criança mais feliz do mundo, em uma loja de brinquedos, podendo comprar tudo o que via pela frente. Adorava quando ela agia assim... Ela.. CHEGA! Não posso mais pensar nela ! Já chega !" Damian pensou, entrou no carro, batendo a porta de maneira brusca e dando a partida em seguida.

Dirigia pelo caminho mais que conhecido, de maneira rápida, procurando chegar em casa o mais rápido possível, pra enfiar-se embaixo do chuveiro e descarregar tudo que estava sentindo. Entrou no elevador da garagem do seu prédio implorando para que o mesmo fosse o mais rápido possível. Chegou em seu andar sentindo coisas distintas: saudades, raiva, paixão, mágoa, tudo isso esperando para ser descarregado. Foi quando ele ouviu uma música fluindo de seu apartamento. Não tinha deixado seu player ligado. Lembrava de ter desligado. Ouviu ‘Flightless Bird, American Mouth’ do Iron and Wine tocando. Não se lembrava de ter essa música no seu player. E ele não tinha, mas sabia de alguém que não deixava essa música de lado. Rodou as chaves rapidamente na fechadura e quando abriu a porta sentiu aquele cheiro maravilhoso que o deixava zonzo. Ela estava ali. Não podia ser, podia? Ela não fora ao encontro na praça, por que estaria no apartamento dele?

Bateu a porta, entrando no apartamento. Ela veio da cozinha, secando as mãos. Sim, agora Damian podia confirmar. Elisabeth estava ali, no seu apartamento. Estava incrivelmente linda. Estava com uma combinação de um vestido preto tomara que caia e um scarpin que a deixava mais misteriosa, mais sensual... Damian estranhou. Ela não sairia só com esse vestido. Olhou para o cabideiro e lá estava sua inseparável jaqueta Burberry e sua bolsa, pendurados. Ainda com os mesmos gostos. Exatamente do mesmo jeito. Elisabeth fitava-o meio receosa, já pensando no que ele falaria vendo-a ali, no seu apartamento, praticamente invadindo.

- Eu ainda estava com a chave. Espero que não se importe. – Ela disse o mais suave possível, fazendo-o sacudir os ombros, ainda meio confuso.

- O que... – O timer do fogão o interrompeu.

- Deve ser o frango. - E ela se encaminhou de volta para a cozinha. Damian estava confuso. O que ela estava pensando quando foi pra casa dele? Ela estava cozinhando? Ele perdera algo? Foi em direção a cozinha e lá estava, uma mesa de jantar, toda preparada pra uma pessoa só comer. Ele DEFINITIVAMENTE perdera algo.

- Você cozinhou? – Ele perguntou ainda chocado.

- Imaginei que você deveria estar comendo quentinhas, congelados e macarrão instantâneo com muita frequência. Sabe, às vezes, só às vezes, a gente precisa de comida descente. - Ela tinha um sorriso leve no rosto, mas quando encarou o rosto de Damian confuso, ficou séria. – Desculpa. Eu não devia ter entrado no seu apartamento desse jeito. Eu... Eu... Sou uma inconveniente mesmo. – Damian a encarava. Ela estava nervosa? Será mesmo que ela tinha tirado toda a armadura e estava ali, só sendo ela mesma?

- Você... Você não apareceu.

- Lamento por isso. – Ela falou parecendo envergonhada. – Eu... Saí do trabalho tarde.

- E como você veio parar aqui?

- Eu... Eu só... Não pensei direito. – Ela disse se virando de costas para Damian. Ele estava certo. Ela estava pensando com o coração. Estava ali, só ela mesma. A Elisabeth que era rara, mas que ele adorava quando aparecia. Ele não podia deixá-la pensar. Não podia deixar que essa Elisabeth lhe escapasse.

- E o que temos pro jantar? – Damian perguntou como se fosse normal, como se fizesse a mesma pergunta todas as noites, enquanto tirava seu sobretudo e caminhava lentamente até Elisabeth, que continuava de costas, como se continuasse envergonhada. E estava. “Não pense. Por favor, não pense. Não deixe sua cabeça falar, não deixe.” Damian pensava enquanto andava até ela.

- Bom, eu fiz arroz e feijão. – Ela não reparava que ele estava vindo em sua direção. Continuava de costas, falando e completamente absorta nos próprios pensamentos de como tinha ido parar ali, sem pensar, só agindo, simplesmente. – Também fiz frango assado, algumas batatas coradas e... – A respiração de Elisabeth parou quando ela sentiu o braço de Damian ao redor de sua cintura, abraçando-a, e seus lábios frios tocando seu pescoço. Damian inalava o perfume de Elisabeth, tentando entender como ele podia ficar tão vulnerável perto dela. Foi subindo sua boca até o ouvido dela, vendo-a respirar mais pesado, vendo-a se arrepiar.

- Tudo me parece delicioso... – Ele sussurrou, mordendo o lóbulo dela em seguida. Ela se arrepiou por completo. Tentava recobrar a consciência, mas não conseguia. Não queria. Estava gostando daquilo. Mesmo assim, tentou:

- Damian, pare... Por favor... Eu não vim pra isso... – A voz dela saía falha. Seu sistema nervoso estava fora de controle. Seu corpo pedia por ele; Sua mente pedia para afastá-lo; Seu coração? Não o ouvia já faz um tempo... Não sabia mais se sabia decifrá-lo.

- Ouça seu coração, anjo... Só uma vez... Ouve se ele não está implorando por mim... Se ele não me quer por perto... Assim como o meu te quer. – Ele sussurrava virando-a de frente para ele. Damian pôs uma mão na nuca de Elisabeth, segurando firme em seus cabelos e fazendo-a fechar os olhos. – Eu preciso de você, Lizzie... E eu sei que você também precisa de mim. Não há nada tão certo quanto você e eu. Entende isso de uma vez. – Ele dizia bem próximo ao rosto dela, entorpecendo-a com seu hálito.

- Eu desisto. – Elisabeth disse como se fosse uma confissão. Era uma confissão. Damian soltou um sorrisinho de lado e uniu seus lábios aos dela, puxando seu corpo pra mais perto com uma mão e com a outra ainda segurando firme em seus cabelos. Os lábios se encaixavam de maneira única, as línguas dançavam em perfeita sincronia, sem pressa... Mais uma vez tudo estava parado.

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